quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Te amo

Ele não devia ter dito aquele “te amo”. Ele já conhece todo o sofrimento que pode vir do uso arriscado dessas duas palavras. Sabe que é suficiente bem menos do que isso para se machucar de novo. Não foi a primeira vez que ele a disse isso, mas a sensação de entrega e vulnerabilidade foi a mesma de antes, quem sabe até mais intensa.
Eram duas palavras perigosas: poderiam ser usadas, por quem as ouvisse, de maneiras diversas; poderiam ser dados a elas significados bastante diferentes e que dependiam das carências e fantasias dessa outra pessoa.
Quanta coisa pode mudar ao se ouvir um “eu te amo”! Nesse momento, dá-se conta, as vezes, de que a relação está caminhando a um lugar para o qual não se está preparado. Essas palavras podem dar medo: medo de que, por causa do amor sentido, o outro se ache no direito de sentir-se dono, agora, da pessoa amada; medo de que o amor do outro seja grande demais, ou com exigências demais, ou difícil demais de ser correspondido.
Ele sabia, claro, que na hora ela não teria medo algum, apenas o sublime sentimento de saber que é amada, o sentimento que deixa a alma leve e que a faz esquecer por um segundo que é madrugada e o dia seguinte começa muito cedo. Ele só tinha medo do que ela poderia vir a pensar depois.
Dizem que amor não se explica, mas ele ainda queria dizer pra ela que aquele amor que sente não é como o amor que se vê por aí: ele é mais tranquilo ao mesmo tempo que é mais constante; ele espera pacientemente pelo nunca que virá um dia, e não tem a pretensão de que tudo tenha que dar certo no final, pois, afinal, tudo já é certo, à sua maneira, no presente (e assim continuará sendo). Queria dizer essas e tantas outras coisas mais que, de tanto ele repetir pra si mesmo, se tornaram verdade.
Ele resolveu esquecer esse medo, pois, enfim, nenhuma experiência é igual à outra, e esse amor não era igual a nenhum outro que ele já havia sentido. E, além do mais, aquelas duas palavras representavam algo que lhe era tão bonito que parecia impossível que, um dia, ele viesse a sofrer por te-las dito.

2 comentários:

  1. Roteiro sereno e sublime. Pude ver a personagem perder-se conscientemente pelos labirintos do teu caminho. O amor é um filme? Este poderia ser um curta, não por sua concisão, mas sim por atingir à queima-roupa o espectador que tem o peito como escudo. Bom mesmo são as legendas! Estas que usadas em várias línguas, a mesma mensagem transmite.

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  2. Legal comentar um comentério...
    Adorei o que vc disse. =)
    Sim, o amor poderia ser um curta, desses que duram pouco tempo na tela mas estendem-se indefinidamente no seu íntimo...

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