quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nostalgia

Você se perdeu se achando.
Eu me achei me perdendo.
Vice-versa.
Tudo bem se a liberdade nos separou,
ou se nossos sonhos saíram voando
nas asas que nos levaram pra frente.
E tudo bem se nossa velha história
vai ficando também menor com os dias.
Tudo bem se a gente nem se fala mais.
E se você não vai voltar
e deixar as paredes falarem por nós,
e os pés da cama escreverem a poesia,
tudo bem.
Você só tem que saber.
Saber só e mais nada.
Eu ainda adoraria.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Poema Urbano



Na minha terra não existe choro:

ele só pode vir junto de um sorriso.

Lágrimas que não são de alegria

são do costume de nossos inimigos.

Por aqui nós somos todos tão livres

que abolimos a palavra liberdade

e escondemo-la na gavela secreta

do esquecimento intocável, a sete chaves.

Não há cidade tão feliz como a nossa,

que tão bem acolhe e a tantos agrada;

onde há liberdade pra esquecer palavras.

Aqui qualquer mudança será rejeitada.
Não chegue, sexta.
Não cheguem, férias.
Não chegue, morte.
Chegue mais, sono.

domingo, 4 de agosto de 2013

Aqui continua tudo igual.
Exatamente como era
quando era tudo diferente.

sábado, 3 de agosto de 2013

Como uma rocha

Nada é tão sério, nega;
e nem é tão vazio.
Nada muda muito.
Muda quase nada.

O mar tá sempre lá,
e sempre estará,
e nunca vai voltar,
e pra sempre voltará,
numa onda.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Poema do amor que foi

Sei que a vida corre fria aí.
E que nada é rápido com a gente
que tem um caso com a eternidade.
E, como a gente, nada se encontra.
Mas sempre vai ter calor do lado de cá.
E por mais oposto que seja
o não lugar do nosso não lugar,
o sol nasce primeiro aqui.
Agora eu tou sempre no futuro te esperando,
mesmo que não esteja.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Minha doença é meu remédio;
a vida, fuga de tédio.
Meu tempo não passa.
Os olhos não veem as horas.

Meu ritmo é contratempo;
contrassenso; contra tudo.
Não passa nada;
Tudo é.

É uma liquidez sólida,
sórdida, e só.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

"passarinho"


A poesia é presa a mil outras, anteriores.
E o carcereiro sou quem escreve.
Dura verdade, bem na cara, o tempo todo.
Poesia é passarinho na gaiola.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Aos Passageiros

Meu bem,
poesia não salva ninguém.
Ela te tira do rumo,
da trilha,
do trilho,
do trem,
que é a vida,
meu bem.
Mas, convenhamos,
sem poesia seria só trem.

domingo, 7 de abril de 2013

Apelo a quem é humano

Tire o sorriso da cara.
Guarde a alegria no bolso.
O tempo, hoje, é outro.
É hora de dar voz ao grito,
e dar volume à queixa.
Vamos quebrar os armários,
reais e imaginários,
e matar os bolsonaros
que circulam em nossas mentes,
felicianos e sorridentes.
Vamos botar a boca no mundo.
Vamos mostrar o rosto;
fechar os dentes.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Divagação

Inutilmente vai crescendo;
tornando-se parte do todo:
uma célula na cadeia,
com uma cédula no bolso;
peça na engrenagem do sistema
sem grades de ferro,
a não ser nas janelas,
portas, prédios, escolas,
prisões...

“Mas somos Livres. Ainda bem!”

Liberdade está presa na não definição.
Coisa que a razão não alcança.
Liberdade definida é prisão
que se constrói pela falta.

Quando o pensamento for livre,
liberdade não vai ser nem palavra.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Livre

O tempo quem leva
a vida.
Carrega nas costas
o peso de si mesmo,
por todo o tempo que viver leva.
Nada se livra.
Nada é leve.
O nada é.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pequeno Anjo

Seu nome era saudades.
Tinha asas enormes
e se despedaçava por todo lugar.

Parecia com um espelho
e se cobria de sorrisos.
Até hoje enfeita os pensamentos.

Agora atende por pedaços;
partes minúsculas espalhadas
de um amor imenso dedicado a ela.

Todos que vivem no passado
esperam seu retorno.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Do coração selvagem


Ele escrevia com a esperança de que aquilo o fizesse bem. Queria tirar as dores do peito, como quem espreme uma espinha. Mas você sabe, existem coisas que é melhor não mexer. Era um labirinto gigante. Aparentemente sem saída. Era o mais genial dos seres no mais estúpido dos mundos; ou talvez o contrário. O que sabia era que não se encaixava. Todos os seres eram tão inseguros, do chão até a poeira que lhes cobria o pensamento; dos pés até a alma, sufocada pela falta de alma de todos os outros.
Ele era o único indivíduo que existia de verdade. Só ele sofria, sentia na pele. Todo o resto era parte de um coletivo assustador. O indivíduo era insomável, mas era divisível; saía perdendo as metades pelas esquinas até que virou a metade perdida, deixada na calçada, à espera de um sonho que lhe abrisse a porta, como um bebê abandonado à espera da mãe adotiva. Mas essa metade sofria de insônia e tinha perdido a fé em sonhos, principalmente nesses que se escondem atrás de paredes.
Só havia um sonho que ele queria sonhar, um que morava na distância, e que ele poderia fazê-lo acordado, caçando estrela cadente, algo perfeito, distante e inatingível, mas algo doce e apertado como o interior do abraço que ele mais sonhou em receber e que hoje mora no quase impossível. Sobravam essas cinzas de um sonho morto que brilhavam mais do que qualquer realidade; sonho morto que você guarda no bolso e não sofre com o perigo de ele te engolir. Sonho domado de um coração que era selvagem, já foi perdido e hoje só quer combustível pra beber; pra continuar batendo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mundo umbigo


O louco, na rua, caminha em casa;
na avenida de seu corredor,
com seus familiares estranhos
e vizinhos alienígenas.
O mundo é sua moradia;
ele se sente preso.

domingo, 1 de julho de 2012

Eu avisei


Eu tava me perguntando, “Qual é mesmo o sentido de ter esse blog?”. Mas aí também me perguntei, “Por que razão você está aí sentado na frente de seu computador lendo um cara que no final não vai dizer nada?”. Aí eu pensei, “Não tenho essa capacidade de fazer boas piadas”. E concluí, “Deve haver uma ligação espiritual muito forte entre nós pra que estejamos conectados assim fora de tempo e espaço”.